Ouço Vozes

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A de Milton me emociona sempre.

Assim como a de Elis, desde a primeira vez em que a ouvi.

As de Eddie, Baleiro e Amy me seduzem já nas primeiras sílabas.

Enquanto a de Elza e Janis me rasgam o peito com tanta potência que carregam.

E, ainda assim, nenhuma delas trazem a ousadia de ser doce e forte ao mesmo tempo, como a de Eller.

Já a de Luiz é melodia pura até no nome.

E as dos Jorges? Salve a voz de todos eles.

As de Nora, Jack e Bob me envolvem quase como um abraço.

E olha que ainda tem a de Nana, Marisa e Saulo.

A de Gil está sempre a me lembrar que Deus existe.

Mas é a de Nina que me faz desconfiar de que esse Deus é feminino.

A de Bradley, Joss e Michael para mim chegam a ser afronte de tão sofisticadas.

E é na de Jards, Alceu e Ney que encontro o melhor convite para ser simplicidade.

Isso que ainda nem falei de Hebert, Dylan e Lenine.

Arlindo, Tyler e Wonder.

Nerina, Alicia, Andra e Teresa.

Mas, sigo ouvindo vozes.

E o quanto elas têm a me dizer, mesmo sem elas saberem o quanto me dizem.

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Linha Tênue

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Entre amor e ódio; três palavras.

Entre partir e ficar; só uma palavra.

 Entre excitação e lamúria;  palavras em excesso.

Entre sabedoria e mistério; palavras escassas.

Entre criticar e comover; palavras frágeis.

Entre verdade e crueldade; palavras sólidas.

 Entre desejo e medo; palavras sufocadas.

Entre saudade e desespero; palavras que não cabem.

 Entre ironia e sedução; palavras curvas.

Entre ignorância e ingenuidade; palavras retas.

Entre distanciar e reaproximar; a primeira palavra.

Entre a guerra e a paz; a última palavra.

 Entre palavras e palavras; somente Continue reading

Farinha do mesmo saco

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O começo e o fim da vida se parecem. São os dois pontos que unem uma reta, na maioria das vezes bem “sinuosa”.

Quando um novo bebê chega ao mundo o enxoval pode ter vindo dos outlets de Miami ou das lojas da 25 de Março.  As pequenas parafernálias infantis podem ser todas antialérgicas e esterilizadas ou reutilizadas pela terceira geração da família. O rebento pode ter um berço de ouro a sua espera e ainda assim decidir chegar na hora do rush, no meio do trânsito caótico de uma grande cidade. Quando chega a hora de vir ao mundo é simplesmente a hora.

E neste momento nenhum deles, ou melhor, nenhum de nós nasce sem presenciar o momento da ruptura. Sem vivenciar a linha tênue que faz tudo mudar e nos obriga logo na chegada a encarar o desconhecido.

Para um bebê recém-nascido o desconhecido tem cheiro e gosto de mundo novo, que ainda está por vir. Um mundo que aos poucos será desvendado, observado e aprendido por ele, em cada detalhe. E com o sorver de cada instante tornará o bebê chorão da maternidade em um arquiteto, juiz de futebol ou missionário. Vai saber? Isso dependerá das escolhas e das tais “linhas sinuosas” que falei no começo do texto.

O choro daquele serzinho desprotegido mesmo tendo uma explicação do ponto de vista biológico, parece também reivindicar o seu direito de continuar onde estava, onde se sentia protegido e seguro, no quentinho do útero materno.  Sua breve vida e território conhecido até então está nesse núcleo. Ao sair dali, ainda que seja para o seu próprio bem, há de se enfrentar uma quebra, um vácuo entre o mundo uterino e o mundo fora do corpo da mãe.

É claro que não dá para afirmar, mas talvez seja este até a primeira sensação de medo na vida de um indivíduo. E mesmo sem saber nominar, neste momento tudo que o novo inquilino mundano precisa para se acalentar novamente é o contato com um colo, que exale calor humano. Ele precisa de outro coração pulsante para saber que o seu não está sozinho. Se esse coração é do pai, da mãe, da enfermeira ou de alguém que o encontrou em uma sacola de lixo não é o que mais importa. Mas ele necessita de amparo no meio da travessia, que instintivamente devemos saber desde muito pequenos que não será dividida com mais ninguém.

No fim da vida essa necessidade de amparo se repete. Uma pessoa pode morrer aos quinze, trinta ou noventa anos, quando se tem essa nova ruptura anunciada tudo que se quer novamente é não estar sozinho.

Quantos homens pedem por clemência no leito da morte? Quantos terroristas, assassinos e gente da pesada não são capazes do olhar mais humano minutos antes de morrer, implorando por compaixão? O olhar que nos coloca no mesmo patamar novamente e como o choro do bebê recém-nascido clama por não ficar sozinho em mais uma ruptura.  E quando a morte vem lenta, no arrastar da idade, anunciada por um prazo de validade que parece se estender por teimosia, as mãos cansadas e gastas também precisam sentir o calor de uma outra mão, que esteja com ela até o último suspiro.

É mais uma das nossas contradições, nós que passamos por esses dois marcos de ruptura sozinhos, não queremos estar sozinhos em nenhum desses momentos. Seja por medo do que virá,  pela sensação de pertencimento ou por pura ironia da vida mesmo, que adora nos colocar no nosso devido lugar. Independente do que acontece no meio do caminho, o início e o fim da vida é igual na necessidade mais profunda de todo ser humano de ser amado. E, esse é um jeito bem direto que a vida tem de dar o seu recado: somos todos farinha do mesmo saco.

A lua que você me devolveu

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Dia de home office. Eu e o meu quarto, meu quarto e eu.  Eram quase sete horas da noite e uma tela de computador me fazia companhia desde a manhã. Não havia mais cadeira, sofá e cama que desenquadrassem a minha bunda. Gosto muito quando posso trabalhar em casa, mas tem dias que a casa fica com ar de escritório também.

Moro em um condomínio grande, no primeiro andar do bloco, o que faz com que o silêncio completo nunca seja exatamente minha companhia. Tem sempre uma conversa de adolescentes que usam a área externa do local para paquerarem.  Gritos e passos desenfreados de crianças que nunca sabem onde começa e termina o playground. Vizinhos que fazem da sacada a sala de estar quando precisam ligar para um call center, talvez na tentativa de que a paciência para este momento venha dos céus. E cachorros frenéticos, que demonstram com seus latidos a descoberta de que há vida, muita vida do lado de fora das paredes que os acolhem, enquanto seus donos saem para trabalhar. E nesse dia também não foi diferente, o silêncio não me fez companhia.

Ainda bem.

Entre o som abafado dos meus dedos tocando no teclado e as linhas escritas de forma atropelada a ponto de nem fazerem mais sentido, ouço uma voz vinda de fora invadir o meu espaço. Era uma voz distante, mas viva e contagiante dizendo:

– Olha mamãe, olha mamãe!

A mãe respondia sem demonstrar o mesmo ar de empolgação, provavelmente porque está acostumada a ouvir esse tom de entusiasmo do filho algumas vezes ao dia. Pela voz que ouvia atravessar as paredes do meu apartamento, o menino que pedia atenção da mãe era uma criança pequena. Naquela fase mais incrível de todas, onde o mundo ainda soa uma incrível descoberta. E tudo, absolutamente tudo é empolgante.

Ele insistia como se não acreditasse que sua mãe não estivesse vendo o mesmo que ele:

-Olha mamãe, olha a Lua!

Nessa hora quem se esqueceu de tudo e atendeu o chamado do menino, mesmo sem ter sido feito para mim, fui eu. Pulei da cadeira e fui para a janela a procura dela. A danada da lua. E, como sempre, tudo parou por alguns instantes. Ela, a lua, me retém.

Neste dia, foi meu pequeno vizinho, que nem faz ideia da minha existência que me devolveu a lua e os olhos encantados de quem está descobrindo o mundo pela primeira vez. Embora o mundo já tenha sido apresentando para mim algumas vezes.

Olhei para ela e a vi deslumbrante como de costume. Imponente, misteriosa e magnética. Olhei para ele e vi um ser pequenino de olhinhos brilhantes, vidrados e enfeitiçados pelo magnetismo dela. Fiquei sem saber quem é que me seduzia mais, a lua ou menino apaixonado por ela.

Por algum tempo ele ficou parado no mesmo lugar dividindo seu olhar entre o céu e a mãe. Dando aqueles pulinhos de criança pequena, que mal consegue tirar os pés do chão, e continuou dizendo empolgado, com uma alegria que só crianças conseguem ter de forma tão espontânea:

– Vem mamãe, precisamos mostrar a lua para o papai!

Os dois seguiram seu caminho. E o menino continuou com os olhos grudados no céu. Como se ele vigiasse a lua para que ela não ousasse fugir dele, não antes dele conseguir mostrá-la ao seu pai.

Fique tranquilo, garoto, às vezes, ela gosta de brincar de esconde- esconde, mas uma hora ela volta.  Ela sempre volta.  Acho que ela é meio exibicionista e precisa desses súditos olhares se prendendo por ela, por isso volta.

Fiquei olhando para ele indo embora e para ela iluminando aquela cena mais um pouco, antes de fechar a minha janela. E percebi que ainda era cedo para ele saber disso, mas silenciosamente torci para que quando ele crescesse e as coisas de gente grande o escondessem da lua e de todos os outros encantos da vida, ela, misteriosamente, também sempre viesse a encontrar um jeitinho de voltar para ele. E devolver o olhar vivo e encantado de quem um dia se apaixonou por ela.

O legado

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Todos os traços tão marcados em seu rosto revelam o que eu já sei de cor e salteado: ela nunca fugiu da vida.

Pouco estudou e muito trabalhou. Parece até que nasceu assim, trabalhando.

E isso ela ainda o faz, numa cisma relutante contra os limites do tempo.

Ela é de uma força turrona. De quem não teve tempo para aprender o que é medo ou desejo.

Ela exagera. Ela ama.

Assim, com ponto final mesmo.

Da vida me ensinou que essa soberana senhora da razão é injusta por vezes.

E ainda assim não se pode perder a fé, mesmo diante do inconcebível.

Fé. Às vezes, ela me faz pensar que quanto mais se tem, mais provações há de se passar.

E ela passa, uma por uma, com a sua fé ou loucura inabalável, já nem sei mais dizer o que é.

Solitária. Mesmo vindo de onde outros 23 vieram.

Em uma luta que parece ser só dela.

E, ainda assim é doação, entrega e devoção.

Simplesmente segue dona de si.

De pudor quase pueril.

De olhos esverdeados, marejados na esperança.

De dores cravadas, na alma e no corpo.

De mãos de fada, com calos e veias saltadas.

De simplicidade abundante, esculpida na alma caipira e desconfiada.

E de cortes rasgados e nem sempre cicatrizados.

Ela segue guiada por sua fé, que eu sinceramente não sei de onde vem.

Eu acredito por nela acreditar.

Se ela não é coragem e suor, eu não sei o que ela é.

Vai ter Natal

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Esse ano tem Natal, como todos os outros anos. Acreditem se quiser, mas tem.

E esse ano pode!

Pode tocar a musiquinha da Simone pela milésima vez.

Ter especial do Roberto Carlos com as “celebris” na plateia caprichando no quesito tantas emoções.

Papai Noel magro e com a barba rala distribuindo doces por aí.

Festa da firma que todo mundo sabe que vai ter B.O, mas finge não saber.

Correria de última hora para escolher o presente do amigo secreto.

E invariavelmente ganhar meias ou pijama no tal do amigo secreto.

Panetone que antes era só de frutas cítricas e chocolate, e agora é trufado, caramelizado, gourmetizado? Vale, vale sim!

Vale também as crianças enlouquecidas com os presentes ganhos e rasgando os embrulhos na velocidade da luz.

O peru pela hora da morte também tem que ter.

E o salpicão com passas só pra tirar cada uma delas na hora de comer é um clássico.

Coloca na conta o mesmo doce que todos os anos a tia Carmem fica de levar para a ceia também.

Comer como se não houvesse amanhã e jurar que depois das festas começa a dieta? Check!

Rezar em gratidão antes da ceia e por um instante se lembrar do aniversariante do dia de fato?! Muitíssimo justo.

Já a rapa do tacho no almoço do dia seguinte é de praxe, né?!

E aquela ressaca sem fim também faz parte do pacote.

Pois é, vai ter Natal, sim.

E pode e deve ter tudo isso.  Não que todo ano já não tenha tudo isso e muito mais. Mas esse ano todos os clichês são mais que bem-vindos. Só para a gente acreditar que nem tudo mudou em 2016.

O ano foi esquisito, tenso, pesado. Dificilmente o ser humano mais alienado não foi afetado pela vibe negativa que rondou a cidade, o país, o mundo. E, mesmo agora, nesse finzinho que parece não acabar, tipo mês de Agosto e suas zicas infindáveis, cá estamos nós, prontos para o Natal.

Uma data que no seu sentido mais genuíno prega quase tudo ao contrário do que esse ano representou nos grandes gestos da humanidade. E que acabam por refletir no pequeno do nosso dia a dia, obviamente.

Por isso, só pra contrariar e bancar o revolts do sistema celebre o dia de Natal com todos os clichês da data. Se existe um dia do ano em que as pessoas param, ou quase, com uma única proposta de celebrar o amor, aproveite sem reservas.

Esse ano pode e esse ano deve.

Não porque isso trará um 2017 sem bizarrices e estupidez humana. Mas ainda é bom se lembrar que apesar dos pesares estamos aí e não deve ser à toa. Foi nesse ano puxado, com ares quase retrógrados em muitas frentes, que também ouvi uma das frases mais lindas e mais do contra também:

“Estamos aqui para levar uns aos outros para casa.”

O resto é a nossa estupidez que acaba falando mais alto em tantos momentos.

Feliz Natal!