No fundo da gaveta

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Bem naquela gaveta, toda bagunçada, cheia de quinquilharias encontrei uma fotografia nossa.

Sim, aquela foto.

Toda emaranhada em bijuterias, post-its e recibos de tempos atrás.

É aquela foto.

Daquele dia.

Do dia que em nada se parece com o dia de hoje.

Dia de urgência, não de pressa.

Por que fui abrir a gaveta?

Tão distraída e assoberbada, nem me lembro mais o que procurava.

Mas achei o que já nem me lembrava.

Nos achei.

Nós e aquele sorriso bobo.

Nós e aquele sorriso doído de tão rasgado.

Nós e aquela pontinha de lágrima escapando meio de lado.

Lágrima de doer, de tanto sorriso bobo rasgado.

Esqueci a pressa, esqueci o que procurava, só não esqueci o que encontrava.

Do dia preso naquela fotografia.

Dia de ser feliz por tudo e por nada ao mesmo tempo.

Voltei no tempo através do sorriso bobo escancarado num registro de segundos.

Segundos esses que nunca importaram.

Nem os que vinham antes, nem os que vinham depois daquela fotografia.

Ainda somos as pessoas daquela fotografia?

É só um pedaço de papel, perdido no fundo de uma gaveta.

Somos desse tempo em que fotografias ocupavam um pedaço de papel.

Sorte a nossa ser a fotografia do nosso sorriso bobo a ocupar um pedaço de papel, e a estar perdida no fundo de uma gaveta.

O registro que não tinha pretensão de ser.

O sorriso que não tinha intenção de convencer.

E o nós perpetuado num instante.

O nós que não se está mais.

Mas esteve, naquele dia, naquela foto, naquele momento.

Me sobrou o  sorriso bobo, que permaneceu mesmo depois de fechar a gaveta.

Fotografias têm feitiço e ninguém nunca nem desconfiou.

Delas ou do nosso sorriso bobo?

Quando esse tempo chegar

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Quando os primeiros sinais do tempo chegarem em meu rosto, que venham celebrando as boas surpresas do caminho. Estampando as marcas de algumas conquistas, que por mais que o tempo tente revelar são cultivadas e saboreadas intimamente.

Depois virá mais um sinal aqui e outro ali, e alguns deles também serão a resposta do tempo às dores e sofrimentos, reais ou inventados, que trazemos na bagagem. Quando eu encarar esses traços no espelho será inevitável me lembrar de tudo com intensidade. Ainda assim, espero que já seja o tempo de não sentir mais o gosto amargo provocado pela lembrança.

No meu corpo é provável que os sinais do tempo venham em forma de pele com menos viço e rigidez. Ao me deparar com isso talvez eu queira voltar no tempo, recusando-me a sentir uma forasteira em mim mesmo. Que seja esse o tempo de haver bom humor e leveza para encarar esta fase como um tempo de liberdade. Enfim, a liberdade de não ter que ser perfeita. E, talvez, estranhamente, seja só aí que me verei bonita no espelho, com as dobrinhas e pele a mais que o tempo me trouxer.

Que nesse tempo eu seja aceitação ao invés de relutância, que eu não me perca travando uma guerra inútil e desesperada contra o tempo. E que eu não use a aceitação do tempo como desculpa resignada para não cuidar da dor nas costas antes dela chegar ao dedão do pé.

Quando o tempo achar que é a hora de me dar fios reluzentes em tom de branco acinzentado, que eu pinte cada fio se assim achar melhor. E que seja por ainda alimentar o prazer bobo e alegre de fazer algo por mim. Nada, além disso.

Desse tempo que há de chegar confesso que residem em mim à contradição do medo e do desejo de que ele realmente chegue. De uma forma ou de outra, quando esse tempo de desejo e medo se tornar passado, que ele possa ser encarado com benevolência. A mesma que espero ter com todos os outros desenganos que a juventude possa justificar.

Não tenho dúvidas de que será um tempo nostálgico e que irei me sentir roubada pelo tempo, mesmo sabendo que há nele sempre a constância de levar e trazer, ganhar e perder, somar e subtrair.

O tempo desconhece a singularidade, nunca pede passagem, permissão ou concessão. Mas sabe ter uma aura nobre de quem pode levar tudo embora, menos o brilho nos olhos de quem ainda traz consigo algum significado. Um significado maior que o próprio tempo.

Que o meu presente no futuro me traga desafios suficientes para eu ser uma dessas pessoas que diz em alto e bom som ao tempo: O brilho nos olhos não! Esse você não me tira!

E que seja com brilho nos olhos que eu tenha a hombridade de reconhecer, no meu tempo, que nunca é a hora de se jogar a toalha e admitir jogo ganho (ou perdido). Que seja o próprio tempo o mestre a me ensinar a ter respeito e gratidão por ele, a me fazer compreender que nunca é tempo de negar o tempo que se tem.

Quando esse tempo chegar, que eu saiba ser inteiramente SIM ao tempo que se faz presente no meu templo.

A menina e a mulher

A mulher e a menina

 

A menina ainda mora aqui.

Você não vê?

De onde você acha que vem o brilho nos olhos e o sorriso arteiro?

De onde você acha que vem o sonho e a semente que gerou o fruto mulher?

Fruto bento, fruto rebento.

Fruto bruto, fruto robusto.

Sim, ela também está aqui, bem aqui.

Você não vê?

A mulher que aprendeu com a menina e constrói os sonhos dela.

A mulher que, por vezes, se esqueceu da menina para não se lembrar da fragilidade escancarada nela.

Mas, elas estão aqui.

Como não vê?

A mulher e a menina entrelaçadas no corpo torpe.

Hora sedutor, hora acalentador.

A mulher e a menina ecoando sons emaranhados.

No que a voz exalta e o coração cala.

A mulher e a menina unificadas pelo caminho.

Com o que uma aprendeu e a outra reaprendeu.

Mas o atrevimento é sempre o da menina.

Só ela para desarmar a rigidez da mulher.

E ela ousa, ela abusa, ela se mete.

Com a simplicidade de menina ela é um convite.

– Vem brincar comigo?

E a mulher na impulsividade que herdou da menina vai, de pés descalços, resgatar a nobreza de brincar.

De ser livre, de ser espontânea e de ser faceira como a menina.

Mesmo extasiada com a menina, a mulher é competição e ambição.

Sobretudo, gratidão.

Por isso empresta o salto alto a menina, para que ela possa ver além dos muros que a cercam.

O salto, o batom vermelho e a dose de coragem que a mulher conquistou por elas duas.

– Vá, menina!

– É só disso que você precisa.

– A força para ganhar o seu mundo eu já te dei, antes mesmo de você me conhecer.

A menina então segue sem olhar para trás.

Com a força e a coragem da mulher, com o coração e a essência da menina.

E ninguém sabe bem em que ponto uma se transformou na morada da outra.

Mas elas moram aqui.

A menina e a mulher.

Você não vê?

As que erram feio e bastante

Mãe

Mais um data com hora marcada para encher nossas mães de carinho e gratidão chegou. Mais uma oportunidade de se emocionar com mensagens fofas e propagandas de derreter corações de gelo também está aí, batendo a porta.

Com muitos discursos honrosos e inflamados por nossas heroínas quem sou eu para pôr em cheque a força dessas mulheres?! Que já são um tantinho insanas por parirem e ainda se metem a louca na aventura mais descabida de criar um outro ser humano. E as que não pariram e aceitam o desafio mais estarrecedor de todos do mesmo jeito?! O de dar amor, dentro e fora de si.

Não, eu não sou louca de contrariá-las ou desejar que não comemorem o seu dia. Que não reúnam a filharada no almoço de domingo e torçam para ganhar um perfume ao invés de um jogo de panelas inoxidáveis. Claro, que eu não me atreveria! Mas entre todas as homenagens e agradecimentos pelo exemplo impecável desses seres, eu queria mesmo era reverenciar aquelas que de exemplares e impecáveis não tem nada.

Um feliz dia das mães a todas que nunca se deixaram de perceber mulher antes de mãe. Porque, sim, uma coisa vem antes da outra. E se percebendo assim renunciaram na medida certa em nome de suas proles. Nem a mais transformando a doação em ressentimento íntimo e profundo. E nem a menos preenchendo lacunas com o sentimento de culpa.

Um feliz dias das mães a todas que nunca vestiram a carapuça de “Mãe Super-Herói”. Vocês não fazem ideia de como é bom ter mãe de carne e osso! Dessas que erram, se descabelam, fazem escândalo e nos matam de  vergonha. São essas que nos enxergam de verdade nos nossos destempéries e trocam o olhar acusatório pelo olhar compreensivo, de quem sabe que quem sai aos seus não degenera.

Um feliz dias das mães a todas que pularam algumas páginas dos livros de autoajuda e se deixaram guiar mais pelo instinto do que pela psicologia de Harvard. Mesmo que essa intuição tenha resultado em algum pequeno acidente doméstico ou algo assim. De um jeito ou de outro o erro não vem por falta de amor. E talvez, inconscientemente, a gente sabe que do mesmo jeito em que aprendemos a dar nossos primeiros passos como filhos, vocês também estão aprendendo a dar os seus primeiros passos como mães (e esse aprendizado não termina nunca, para nenhum filho e nenhuma mãe).

Um feliz dias das mães a todas que resistiram a tentação de colocar suas crias num pedestal inatingível de proteção, de orgulho e até mesmo de ostentação. A gente sabe que um filho é precioso para uma mãe, mas  crescer sem a ilusão tola de que o mundo todo nos valoriza como nossa mãe, salva no mínimo a conta do analista.

Um feliz dias das mães a todas que assumem sem medo o lado “feio” da maternidade.  Não por ser propriamente feio, mas por ninguém falar já que pode parecer feio admitir que tem dias que é um saco ser mãe. Olha, na boa, te entendo, viu?! Tem dias que é um saco ser filha, a diferença é que ninguém nunca colocou meu amor a prova por isso.

Um feliz dia das mães a todas que optam por não diminuir a paternidade como meio de autoafirmação. Colocar o marido no mesmo balaio do filho, sabe?! E se tornar a mãe de dois, quando um deveria ser o parceiro a rachar a conta no fifty/fifty. Tem mulheres que nem se dão conta, mas fazem isso para de alguma forma se perceberem maiores e soberanas no reinado matriarcal, abrindo mão de dividir a responsa e o prazer que também existe numa guarda compartilhada de fato.

As que erram feio e bastante, as que nem de longe se parecem com nenhuma desses modelos que sugerem perfeição, as que estão longe da figura imaculada e sublime da maternidade, as que são malucas, inconstantes, impulsivas e exageradas. As que são mãe por inteiro, mas não depositam nisso sua completude como ser humano o meu maior respeito e admiração.

Eu não tenho filhos e posso estar me metendo num território onde não fui convidada.Mas eu tenho uma mãe – de carne, de osso e de muitas imperfeições. E quanto mais eu cresço, mais eu me dou conta do privilégio de ter vindo de um lugar assim. Porque sorte mesmo é poder encará-las humanas e só. Sem nenhum superlativo. E esse dia chega para todos nós, filhos.

Feliz dia das mães!

Amor silencioso

amor silencioso

Sempre gostei de silêncios demorados, desses que chegam sorrateiramente e invadem todos os espaços. Não falo do silêncio de quem tudo sufoca, esse aterroriza e machuca mais que palavras disparadas em queda livre. Me refiro ao silêncio de quem não precisa fazer alarde, por simplesmente não sentir a menor obrigação de afirmar nada ao mundo.

Em tempos de tanto barulho por nada, ou até barulho por algo que realmente necessita de estardalhaço, mas quase sempre cheio de ativismo da boca para fora e reações inflamadas de agressividade, me vejo testemunha de uma cena que me fala tanto de uma forma silenciosa. Um papo reto com a alma sem a intermediação de qualquer ruído, indo mais fundo que qualquer conjunto de palavras articuladas com argumentos e contra-argumentos aparelhados pudessem fazer.

Era um almoço qualquer no shopping em frente a minha casa, eu na correria de querer colocar qualquer coisa no estômago e cair fora, o shopping no modo acelerado de sempre: Pessoas desfilando suas bandejas, desviando de obstáculos assim que saem do balcão de pedidos, erguendo a cabeça em busca de uma visão privilegiada do cenário, torcendo para encontrar um derradeiro lugar desocupado e chamar de seu. Filas ensandecidas por dois hambúrguers, alface, queijo, molho especial, cebola e picles no pão com gergelim. Pais brigando com filhos por derramarem o suco ou por não comerem toda a comida do prato. Filhos lendo o cardápio em voz alta para pais que já não tem mais a visão e a audição como uma super aliada do dia a dia. Casais trocando garfadas, chamegos e zapeadas no celular. Funcionários frenéticos com seus paninhos em movimentos circulares sobre as mesas, para deixá-las prontas para que um novo grupo de clientes pudessem se sentar. E aquele burburinho de conversas, pedidos, risadas e broncas intermitentes ao fundo.

A gente se acostuma com essa configuração atordoada quando se está em um shopping e até espera por ela, talvez, por isso, os dois homens e a criança já quase adolescente dividindo a mesa em frente a minha chamaram a minha atenção. Quer dizer, por aparentarem exatamente o oposto daquele cenário intranquilo de um shopping em pleno final de semana. Os três estavam almoçando juntos, o garoto que visivelmente tinha uma limitação física dos seus movimentos era auxiliado por um dos homens que o acompanhava, recebendo comida na boca. No meio de tantas outras pessoas eles eram apenas mais três, mas tinham uma serenidade que não se encaixava naquele ambiente tumultuado. Percebi isso logo de cara e fiquei de longe, observando-os.

Foi dessa forma que acabei sendo presenteada como uma cena simples e de puro amor. Amor que não se grita aos quatro cantos, simplesmente se vive. O menino preocupado como o homem que o alimentava resolveu avisá-lo de que a comida dele iria esfriar, se ele continuasse o ajudando com suas garfadas. O garoto parecia incomodado com isso, sabia que precisava de ajuda para comer, mas não queria que o outro comesse comida fria por sua causa. O homem então olhou para o próprio prato, para o garfo que já estava suspenso no ar com a comida do menino e como se estivesse encontrado a solução mágica para o problema seguiu em frente na sua tarefa de ajudá-lo a comer. Entre uma mastigada e outra do garoto pegou seu próprio garfo e começou a comer um pouco da sua comida também. Não satisfeito e surpreendendo ao menino e ao outro homem que os acompanhava, começou a alimentar o terceiro integrante da trupe, que poderia fazer isso muito bem sozinho. Mas o homem quis fazer do pequeno problema que apareceu em sua frente uma solução compartilhada entre os três. Pronto, estava estabelecido o rodízio: uma garfada pra você, outra pra ele e outra pra mim.

O gesto inesperado arrancou risadas do garoto e acho que também um certo alívio. Os três ficaram ali dividindo garfadas e risadas sem pressa nenhuma. Fiquei esperando a câmera abrir e os créditos finais de alguma marca disposta a nos emocionar aparecer. Felizmente, não teve créditos finais, teve amor do começo ao fim daquele almoço. Eles não trocavam só garfadas, compartilhavam um momento inteiro entre os três sem a intervenção de mais nada. Parecia que aquela cumplicidade que eles exalavam bastava.

Não faço ideia de qual era a relação entre eles. Pais e filho, amigos, enfermeiros e paciente, sei lá, o que importa é que parecia ser real, calcado em puro afeto. Eles não tinham a intenção com um gesto tão simples de dizer a ninguém como é que se ama e o que ou quem é que se pode amar. Não tinham o discurso na ponta da língua, não estavam ali para evangelizar ninguém, muito menos para ostentar nada, estavam apenas almoçando. Eu é que por sorte fui a intrusa a entender que eles são o discurso na prática.

Uma cena pequena como essa se torna grandiosa diante de tanta mesquinhez que se proclama em nome do que quer que seja por aí. Que privilégio o deles três viver de um amor sem barulho, não por se esconder, ou ter motivos para isso, apenas por ser despretensioso mesmo. Mais preocupado em ser do que parecer ser. É esse tipo de amor que se alicerça em si mesmo para sobreviver que carrego a esperança, talvez utópica, de que um dia ainda domine o mundo. O amor onde a gente não precisa levantar bandeiras, só o garfo de forma alternada para que ninguém coma comida fria.

Dobrei a esquina e dei de cara com o verbo PERDER.

 

perder

Nos tempos de escola provavelmente algum professor já te disse que o importante é competir e não ganhar. Aí você cresceu, ou antes mesmo disso, descobriu o significado do verbo perder em uma situação muito menos divertida que um jogo de queimada na quadra do colégio, com seus coleguinhas de classe divididos em time Azul e time Vermelho.

Pode ser que a incrível descoberta de que não importa o quão brilhante você seja, mesmo assim em algum momento da vida você terá que se deparar com a perda, tenha vindo na forma de um amor com promessas de eternidade, até se perceber que o para sempre era bem mais etéreo do que se gostaria. Ou na tentativa frustrada de realizar um sonho que você acreditou, batalhou, insistiu, persistiu e mesmo assim não se realizou. Talvez, nas chances que você nem sequer soube entender estar se desenhando a sua frente. Ou numa simples discussão em que os argumentos se esgotam e você não tem outra alternativa a não ser se render.

Perder em alguns momentos é uma escolha, mas em outros tantos se torna inerente ao caminho. E no caminho dificilmente alguém nos ensina como perder, aprendemos sozinhos mesmo. Aprendemos depois de muito bater a cabeça na parede e dar murros em pontas de faca. Chorar, se descabelar, dramatizar e fazer a pergunta mais cruel de todas: por que eu?

E por que não eu?

A gente sofre com os fracassos e temos todo o direito de sofrer, sem essa onda cafona de ditadura da felicidade! Mas tem uma hora, depois de perdas homéricas e apoteóticas, que a gente se depara com a perda honesta e digna. Aquela que faz a gente se olhar de frente e se encarar sem medo das desculpas: Perdi, playboy!

Quando a gente perde bonito, com a tal honestidade e dignidade de que falei acima, de simplesmente aceitar sem criar mil desculpas ou perguntas, sem culpar o mundo todo ou se culpar como se fôssemos os algozes de nós mesmos, nessas horas é quase gostoso perder!

Aceitar que não dá para ganhar sempre não é engolir o discurso mal contado dos tempos de escola, de que o importante é competir. É exatamente não competir com o que não se tem controle. Quando passa pela generosidade consigo mesmo a perda pode ser leve, suave, até um tanto libertadora.

É conseguir olhar para frente sem perder tanto tempo no que poderia ter sido e não foi. E aprender a se amar um pouquinho mais ao aceitar que ninguém veio ao mundo com a incumbência de ser  “Mr.Perfect”.

Nem sempre dá para perder bonito, às vezes, é necessário perder feio. E tudo bem também, tem perdas que são quase inconcebíveis para se exigir que as compreendamos. Agora, se um dia você conseguir ter olhos mais serenos diante de  um fracasso, saiba que no fundo não foi perda, foi ganho.

 

TRINTAR

Trintar

Eu não sei se a culpa é de Balzac, da crônica que circula na internet (Mulheres de 30) atribuída a Jabor, ou ainda da frase que mais parece prêmio de consolação – de que os 30 anos são os novos 20. Trinta anos são trinta anos e ponto! Assim como os 29 são vinte e nove e 31 são trinta e um. Simples,não?!

Mais ou menos, ao adentrar a casa dos trinta anos a sensação é  de que um portal se abre a sua frente e alguém estará lá, bem diante do seu nariz, pronto pra te perguntar: E agora, José? Casou ou comprou uma bicicleta?!

Ih…desculpa aí seu moço, mas não fiz nem uma coisa e nem outra. E mesmo assim não passei ilesa pelas expectativas que os outros e nós mesmos criamos sobre essa fase da vida, a de que a essa altura a gente já tenha dado certo. Embora ninguém, com mais ou menos de trinta, saiba muito bem o que isso quer dizer.

É nessas horas que a gente afrouxa o cinto, se estatela no sofá, se atraca com um pote de sorvete e deixa a “crise” se instalar: Vem ni mim, que eu to facim! Ou nos casos mais exagerados como o meu, nem espera os trintão bater a porta, começa a ensaiar com antecedência, lá pela casa dos 25,26 anos. Ao menos é isso que um outro texto que escrevi nessa época revela:

“E, de repente, quase 30. Sim, eu disse quase! Quase e eu já estou em crise, nem sei se posso chamar de crise, nem sei se é pra se ter crise aos trinta anos de idade?!

Crise aparece sem essa solenidade de esperar por idade redonda.

Mas, de repente, olhei no espelho e me dei conta de que não sou mais aquela de vinte e poucos anos, alguns amigos já se casaram, até tem filhos, e acreditem se quiser já encontrei uns fiozinhos brancos no meu ninho de mafagafinhos (leia-se: minha vasta cabeleira).

Sou a de quase trinta que já pensa ter trinta, pode isso Arnaldo?”

Pode, pode sim. Como diria Arnaldo, a regra é clara e o tempo passa para todo mundo . Se de lá pra cá só ganhei uns fiozinhos brancos na vasta cabeleira, que por sinal continua vasta , há quem vá dizer que estou no lucro! Nessa de crise ou não, e com todos os exageros a parte, estou aqui me relendo e redescobrindo  que um dia foi esse mesmo “eu” de vinte e tantos anos quem  também disse ser a de quase trinta que:

“Já pensa ter trinta, mas que em muitos momentos ainda parece ter dezessete, vinte e dois e até cinco anos de idade, assim mesmo, sem ordem cronológica.”

E é assim que provavelmente chegarei aos oitenta, se  o universo conspirar ao meu favor até lá. A gente é a soma de tudo que vive, e a soma de tudo o que (re) vive anos a fio. Seja no jeitão sonhador da adolescente de dezessete anos, que queria viver  em uma pousadinha charmosa a beira mar e ganhar as grandes cidades do mundo inteiro ao mesmo tempo. Ou seja na menina de apenas seis anos, serelepe e exibida, que falava com as mãos e se deixava seduzir por ele. Ele, que levou para um outro plano um pouco do jeito arteiro da menina, mas deixou nela as mãos falantes e a opinião na ponta da língua para tudo, com um certo ar de atrevimento até hoje. E seja na sessentona que ainda nem sou, mas que posso apostar já ter muito dela,  assim como sei que ela ainda terá muito da minha inquietude de agora.

Portanto, não me venha perguntar se casei ou comprei uma bicicleta?! Nem a mim e a nenhuma outra trintona  ou trintão por aí. A questão é bem maior do que isso.  A de vinte e seis que pensava ter trinta parecia perceber, e entender que de todos os atropelos e deslumbres o que  sobra é a graça, se a gente aprender a não se levar tão a sério:

“Nesses quase trinta aprendi a olhar para os meus desastres ambulantes com uma certa graça. Se eu pudesse me ver de fora ia querer me dar uns solavancos, muito colo e dividir uma dose de tequila comigo mesma.

– Ei garçom, dois shots, por favor! Um pra mim e outro pra mim também. Ou melhor, pra essa moça desajeitada, engraçada, dramática, inquieta e meio misteriosa.

Ia sentar comigo mesma, ficar bêbada comigo mesma e rir de cenas da minha vida que só divido comigo mesma. Já que na hora a gente se descabela, chora, faz promessa,mandinga, reza o terço, liga pra mãe e diz que nunca mais!”

Nunca mais? Acho que o “peso” que tentam impor aos trinta talvez seja esse compromisso de querer subverter a equação em mais acertos do que erros. Como se até esse marco fosse um ensaio e depois disso alguém apertasse o cronômetro: valendo!!! Pura convenção, tá valendo muito antes dos trinta e continua a valer depois também.

Trintar não dói , mas também ninguém acorda mais mulher ou homem poderoso e dono de si por isso. Não há garantia de maturidade só porque já se enfrentou o retorno de Saturno, talvez a soma do que se viveu até chegar a essa  idade possa vir a ser um indício. Pode até significar um pezinho de volta a terra, meio que na marra, já que na casa dos vinte ainda é permitido ter os dois pés completamente fora do chão. Mas não é um angariar de ganhos e perdas, talvez  apenas a descoberta resignada  de que um não existe sem o outro.

Fazer trinta anos definitivamente não é ter a exatidão de um futuro, ainda que para alguns nessa idade o futuro já até possa parecer desenhado.  É continuar incerto no presente e tentar se fazer presente.

E, de tudo isso, uma coisa a de trinta pode aprender com a de quase trinta:

“Sem saber quanto tempo é o nosso tempo o desafio é ainda maior. É exatamente aí que reside a graça e o mistério. Sem saber quantos outros trintas ainda irão me caber o que eu não quero é perder tempo!”

 E é exatamente nessa hora que a gente se levanta do sofá e diz em alto e bom som: Seja bem-vindo trinta, embora eu acho que já te conheço de outros carnavais.

 

 

 

A São Paulo que a gente não vê

SP

Tem beijo apaixonado de despedida no metrô, com direito a uma plateia sonolenta a caminho do trabalho testemunhando, mesmo em meio à pressa, que existe sim amor em São Paulo.

Tem um livro deixado numa estação de trem propositalmente dedicado a um desconhecido, com uma dedicatória capaz de reascender as esperanças de quem já não sabe mais o que é isso.

Tem morador de rua que se aproxima para oferecer ao invés de pedir, e com um sorriso no rosto nos obriga a engolir a seco o preconceito e a armadura gratuita.

Tem galinhas e até um pavão desfilando a céu aberto, no meio de um parque, em plena região central da grande cidade, nos permitindo desacelerar um pouquinho que seja a nossa eloquência de todos os dias.

Tem alguém disfarçado de ninguém desafiando um dia caótico de trânsito, greves e manifestações com uma dancinha desengonçada no meio da chuva. E, despretensiosamente, trazendo a beira do cais no meio do caos para quem teve o privilégio de assistir a grande cena.

Tem uma cabeça branquinha e de pés cansados abrigando uma alma de quase 90 anos, ainda repleta de vida, repetindo o mesmo convite tentador todas as manhãs a quem passa em sua calçada:  “Quer conhecer minha casa de chás?”.

Tem atendentes de uma rede de restaurantes que aproveitam seu horário de descanso para dar “tchauzinho de miss” aos carros que passam na avenida. E fazem disso uma brincadeira de criança, escancarando um sorriso no rosto tão genuíno que aquele pareceu ser realmente um McDia Feliz.

Tem alguém ainda capaz de notar o pranto alheio e prover um abraço sem reservas, não como garantia de alguma resolução, mas como a certeza cada vez mais rara de deixar o outro saber que não se está sozinho.

A São Paulo que a gente não vê existe. É real. Essa e tantas outras tão mais lindas espalhadas por aí. Essa São Paulo existe mesmo com toda a adversidade querendo provar o contrário. Essa São Paulo incide, insiste e resiste, pena que gente não vê.